Série: Conhece os nossos Especialistas | IMPACTsci
Tema: Autismo, Educação e Desenvolvimento
1. Carina, apresenta-te com as tuas próprias palavras. Quem és e o que é a Impacta Educa?
Começa bem…! Quem sou eu? Sinceramente é uma resposta bastante difícil. Eu sei que sou mãe, sou autista, tenho stress pós-traumático complexo, síndrome de dissociação, descalculia, défice de atenção e hiperactividade, sou extrovertida, comunicadora, sarcástica e empática (em demasia talvez). Talvez por ser tanto, seja alguém em constante mudança. Neste momento não sou a Carina que era quando me estava a tentar adaptar, não sou a Carina que vivia a achar que a máscara era a sua pele, não sou a Carina quando me tornei mãe, não sou a Carina antes da Impacta Educa, não sou a Carina que era o ano passado. E a Impacta Educa é assim também. Uma metamorfose constante e bonita que se adapta, cresce, aprende, transforma.
2. A Impacta Educa nasceu de uma necessidade. O que falhou no sistema que te fez dizer “tenho de criar isto eu própria”?
Eu e o meu filho, especialmente o meu filho, passámos por uns desafios bastante exigentes e sentimos a solidão. Não só uma solidão de pessoas, mas uma solidão com o sistema, uma solidão no entendimento, uma solidão na felicidade em sermos nós. Eu tenho consciência do nosso privilégio: eu sou saudável, tive a minha família para me ajudar, consegui colocar o meu filho em Ensino Doméstico, tive a capacidade de me adaptar. Mas e quem não tem estes privilégios? É justo? É justo que tenham de ser as famílias, que tenham de ser as crianças e os jovens a sofrerem por existirem? O sistema falhou, sobretudo, na capacidade de escutar. Durante muito tempo, senti que as respostas disponíveis tentavam adaptar a criança ao sistema, em vez de adaptar o sistema à criança. Percebi que não podia continuar apenas a identificar lacunas. Precisava de ajudar a construir a resposta que eu própria gostaria de ter encontrado. Prometi que no que dependesse de mim, mais nenhuma família, mais nenhum filho(a) iria passar pelo que nós (eu e o meu filho) passámos. A Impacta Educa nasceu exatamente dessa necessidade: criar um espaço onde a diferença não fosse apenas tolerada, mas vista como aquilo que é, uma forma perfeitamente natural e com valor próprio de estar na vida.
3. Tu própria és neurodivergente assim como parte da tua equipa. Como é que isso moldou o que a Impacta Educa é hoje (a forma como trabalhas, o que ofereces, as decisões que tomas)?
Moldou tudo. Influenciou a forma como organizamos os espaços, como comunicamos, como planeamos, como acolhemos e como tomamos decisões. Quando somos neurodivergentes, conhecemos por dentro a experiência de sermos mal interpretados, subestimados ou pressionados a funcionar de uma forma que não respeita a nossa natureza. Essa vivência dá-nos uma sensibilidade muito particular para reconhecer necessidades que, por vezes, passam despercebidas. Na Impacta Educa, não usamos apenas a teoria. Trabalhamos com base no que passamos na pele. Isto muda tudo, cria um ambiente de verdadeira empatia, flexibilidade e autenticidade. Os alunos e as famílias sentem rapidamente quando estão num lugar onde não precisam de se justificar constantemente. Nós dizemos “Aqui não ensinamos ninguém. Criamos condições para o cérebro adquirir aprendizagens”. Acredito que uma equipa neurodivergente consegue oferecer algo muito valioso: compreensão genuína, criatividade na resolução de problemas e um compromisso profundo com a construção de soluções.
5. A IMPACTA EDUCA já teve projetos em conjunto com a IMPACTsci. Como foi essa experiência e porque é que é importante organizações neurodivergentes colaborarem?
A colaboração com a IMPACTsci foi muito natural, porque partilhamos valores fundamentais. Existe um entendimento mútuo de que a neurodiversidade não é um problema a corrigir, mas uma realidade humana que deve ser respeitada e apoiada. Quando organizações neurodivergentes colaboram, criam-se espaços de inovação, de validação e de fortalecimento coletivo. Deixamos de trabalhar isoladamente e passamos a construir pontes. Para mi, isto é crucial porque mostra que é possível produzir ciência, criar serviços e mudar a vida das pessoas com base na nossa própria vivência, mantendo a exigência técnica e a sensibilidade.
6. Uma família que está a considerar a Impacta Educa provavelmente já passou por outros sítios que não funcionaram. O que lhes dizes?
Pergunto pelos filhos! A nossa política na Impacta Educa é sempre do “nada por nós, sem nós”, por isso as pessoas interessadas têm de vir visitar sempre. Perceber o ambiente, entender se sentem empatia e conforto com os adultos que lá estão e, principalmente, se sentem que podem ser elas mesmas. Depois às famílias em si, digo-lhes que acredito nelas. Acredito no cansaço, na frustração e na sensação de solidão que muitas carregam. Conheço esse sentimento, não apenas como profissional, mas como mãe. Muitas famílias chegam habituadas a ouvir tudo o que o filho “não consegue”. Ou como o filho já devia fazer isto e aquilo. Ou como o filho deve estar num sítio “mais preparado para o receber”. As famílias chegam destruídas, desmotivadas, sem esperança e exaustas. As crianças e jovens chegam com traumas, ansiedade, tristeza, vergonha. A Impacta Educa não é “só um sitio”. É um lugar seguro.
7. O que te motivou a fazer parte da equipa de especialistas da IMPACTsci?
Foi uma questão de darmos clique nos valores. Percebi que a IMPACTsci estava mesmo comprometida com a ciência e com o respeito pelas pessoas neurodivergentes. Senti que ali podia ser eu mesma, sem ter de separar o meu lado pessoal do profissional. Quando encontramos pessoas e organizações que falam a mesma linguagem, colaborar deixa de ser apenas trabalho e passa a ser uma extensão natural da nossa missão.
8. Já alguma vez sentiste que o facto de seres neurodivergente foi usado para te desacreditar?
Demasiadas vezes. Por vezes, aquilo que deveria ser reconhecido como uma fonte de conhecimento e sensibilidade é interpretado como fragilidade ou falta de objetividade. Existe ainda a ideia de que quem vive determinada realidade está “demasiado envolvido” para falar sobre ela com competência. Eu acredito exatamente no contrário. A minha neurodivergência não me limita profissionalmente, pelo contrário, dá-me uma visão mais ampla. Respondo com trabalho, consistência e resultados. A experiência prática, quando se junta ao conhecimento técnico, dá-nos uma força imbatível.
9. Criar um negócio já é difícil. Criá-lo sendo neurodivergente é outra coisa. O que foi/é mais duro nesse percurso?
Talvez o mais difícil tenha sido continuar a acreditar quando ainda não existiam provas externas de que a visão era possível. A burocracia, a necessidade de provar constantemente o nosso valor e a luta por financiamento são um desgaste gigante, especialmente quando já gastamos metade da nossa energia só para gerir o dia a dia. Também foi desafiante lidar com a síndrome de impostor e com o medo de que um projeto tão grande pudesse não se concretizar. Neste momento, difícil é aguentar a dor ao ouvir o que continua a acontecer. Aguentar a dor quando vejo tantas injustiças, tanta falta de humanismo, tanta falta de respeito pelo outro (especialmente se o outro for diferente do agressor). O difícil é conseguir escolher as batalhas.
10. Para quem quiser saber mais sobre a Impacta Educa ou contactar-te, como podem encontrar-te?

