Talento neurodivergente
Portugal está a perder talento
Imagine um candidato que memoriza manuais inteiros, identifica erros que mais ninguém viu e resolve problemas por caminhos que a equipa nunca considerou. Agora imagine que esse candidato perde a oportunidade de ser contratado por falta de contacto visual na entrevista. Este é um exemplo da realidade de milhares de jovens neurodivergentes em Portugal. Um problema com custos elevados para as empresas.
O que significa ser neurodivergente no mundo do trabalho?
Dislexia, PHDA, autismo e dispraxia são palavras que ainda carregam muito preconceito. Na verdade, elas descrevem apenas formas diferentes de processar o informação, o que traz desafios diários muito específicos.
Um jovem com PHDA pode ter dificuldade em aguentar uma reunião de duas horas. Contudo, pode ser a pessoa que resolve um problema sob pressão e deixa a equipa de boca aberta. Um jovem autista pode não conseguir ler as pistas sociais numa conversa informal de café. No entanto, pode ser o profissional mais rigoroso, honesto e focado na sua área de especialização.
O problema real não está nas pessoas. Está nos ambientes de trabalho que continuamos a desenhar a pensar que todos os cérebros funcionam da mesma maneira.
Que barreiras encontram os jovens neurodivergentes na transição para o mercado de trabalho?
A taxa de desemprego em adultos autistas ronda os 75% a 80% em Portugal.? Na Europa, menos de 29% estão empregados? Estes dados deixam claro que os obstáculos começam muito antes do primeiro dia de trabalho.
A maioria dos jovens sai do sistema de ensino sem qualquer plano de transição. As escolas não os preparam para enfrentar processos de recrutamento feitos à medida de perfis neurotípicos. Falamos de entrevistas que avaliam a capacidade de conversa em vez da competência técnica. Além disso, trata-se de anúncios com descrições tão vagas que um cérebro que interpreta a informação de forma literal simplesmente não se revê e desiste de submeter a candidatura.
O resultado está à vista. Deixamos profissionais talentosos e capazes completamente fora do mercado de trabalho.
O que podem as empresas fazer, concretamente, para mudar isto?
A inclusão começa em detalhes práticos de baixo custo e alto impacto. Passa por reescrever anúncios de emprego com requisitos diretos e sem linguagem ambígua. Além disso, é importante indicar o salário, oferecer flexibilidade de horário por defeito e substituir a entrevista tradicional por uma tarefa prática, sempre que adequado. A IMPACTsci apoia as organizações na criação destas e de outras medidas.
Quem está a construir estas pontes em Portugal?
A IMPACTsci é uma empresa social liderada por pessoas neurodivergentes, que utiliza a experiência vivida para criar soluções práticas, adequadas às empresas e à comunidade.
Para as organizações, disponibiliza formação e-learning em neurodiversidade e inclusão, desenhada para orientar as lideranças na criação de culturas de trabalho recetivas a diferentes perfis. Para as escolas, o programa “Neurodiversidade em Contexto Escolar” capacita docentes para o apoio à autorregulação dos alunos. É fundamental o foco na adaptação de salas de aula e na criação de espaços sensoriais.
A nível europeu, o projeto ACTIVATE, criado pela IMPACTsci e coordenado pelo Ministério para a Inclusão de Malta, foca-se no empoderamento de jovens autistas através de uma Academia de Auto-advocacia. O projeto integra uma unidade de advocacia no trabalho, com ferramentas para negociar adaptações desde a entrevista até ao recrutamento. Esta capacitação conta com um serviço de mentoria especializado. É desenhado para que os jovens atuem como cidadãos activos na desconstrução do preconceito, com o suporte da sua comunidade.
Porquê investir nisto agora?
O futuro do trabalho exige as melhores qualidades do talento neurodivergente. Pensamento lateral, capacidade de hiperfoco e reconhecimento de padrões complexos. São competências impossíveis de replicar pela inteligência artificial. Contudo, muitas organizações continuam a ignorar o facto de que a inclusão destes profissionais pode aumentar a produtividade até 30%.
Incluir significa construir equipas melhores, culturas humanas e empresas preparadas para o futuro. E em Portugal, já existem exemplos a seguir
A IMPACTsci é uma empresa social portuguesa especializada em neurodiversidade, inclusão e capacitação de jovens no mercado de trabalho.
Fontes e Referências: Dados de empregabilidade da Ordem dos Psicólogos Portugueses (OPP) sobre Neurodiversidade no Contexto Laboral. Disponível em: https://www.ordemdospsicologos.pt/pt/noticia/5586
